POR:WALLACE
(em homenagem ao nosso amigo Maike do Cafépsi)
(em homenagem ao nosso amigo Maike do Cafépsi)
“Podemos dizer que todas as pessoas
são tristes somente por sua frágil aparência? Que a infelicidade é
o sentimento mais humano que podemos entender? Que todos sofrem de
maneira igual ou que guardam este estado dentro de si por algum
motivo? Eu posso responder um não para as três perguntas, pois eu
conheci alguém que era diferente. Um menino, um menino especial.”
“Num lugar cinza de concreto e
asfalto, onde a chuva constante era a única manifestação da
natureza humana, vivia uma família de três integrantes: o pai, a
mãe e o filho. Digo o pai, a mãe e o filho por não saber outros
termos de uso, pois não sinto que era isto mesmo. Acho que nem laços
consanguíneos possuíam. Mas para a memória da criança que ali
vivia deixo a crença de família a ele, ao menos a crença.”
“Na casa desta família encontra-se
o menino que citei antes. Ele era parecido com outros meninos de sua
idade: baixo, franzino, meio encardido e com o nariz escorrendo.
Nunca fui um bom detalhista com as outras pessoas. Nunca sentir a
necessidade de olhar para os outros. Todos eram meio embaçados por
causa da chuva. Sendo escritor de profissão isto era um problema.
Mas penso que aquele menino era bem parecido comigo quando criança,
por isso da descrição tão pessoal.”
“Mas voltando ao nosso menino que
nem falar falava... Não falava porque falava. Ninguém sabia o
porque disto, mas não era algo comum entre os meninos de sua idade.
Em casa, o pai e a mãe falavam. Falavam num tom baixo quase mudo,
mas falavam. O menino não. O menino só olhava como se o seu olhar
já dissesse tudo. E dizia mesmo. Mas para entender este olhar
necessitava de algo que os outros não tinham acesso. Não sei o que
era, talvez um livro, sei lá. Mas aquele menino dizia tantas coisas
com aqueles olhinhos remelentos. Os seus olhos eram duas questões
buscando respostas. E bota respostas a fornecer aqueles olhinhos. Por
que a calçada era tão pequena e a rua era tão grande se havia mais
pessoas do que carros? Por se dizia as mesmas palavras quando se
encontravam com pessoas diferentes? E por que raios chovia tanto
naquele lugar? Perguntas e mais perguntas que eu não saberia
responder agora.”
“O menino não era pobre, mas era
privado de muitas coisas. Coisas que todos precisam ter naquela idade
para quando se tornasse adulto conseguisse suportar bem a vida. Ele,
um dia, andando pela rua achou uma bicicleta jogada atrás das latas
de lixo. Sentiu algo por aquela bicicleta. Algo que nunca havia
sentindo antes. Uma coisa que fazia a sua respiração diminuir e
fazer doer a sua cabeça. Ele sentia pena da bicicleta. Pena por uma
bicicleta? Sim ora essa. A bicicleta era muito diferente. Não
possuía a corrente, o freio estava quebrado e o aro da roda da
frente estava torto. Só que era uma bicicleta mesmo assim e o menino
pegou-a para si. O menino arrastava aquela bicicleta pela rua todos
os dias quando queria brincar. Todos olhavam aquele menino andando
pela rua com uma bicicleta quebrada. O menino não se importava com
isso. O que incomodava aquele menino era aquela chuva que caia
constantemente deixando a bicicleta cada vez mais pesada. Se eu
conhecesse aquele menino naquela época eu teria comprado uma
bicicleta novinha para ele. Uma vermelha, com aro fino e com quatro
machas. Que mesmo quando ele saísse na chuva a bicicleta estaria
levezinha para andar. Bobagem minha, eu não faria isto. Eu somente
olharia para aquele menino com o mesmo sentimento que tinha ele
quando olhou para bicicleta pela primeira vez.”
“Outra coisa que o menino tinha,
que para muitos era nada, mas para ele era tudo era uma coleção
incompleta de soldadinhos verdes. E com estes soldadinhos o menino
passava horas e horas somente fabulando histórias de tempos antigos
onde a própria palavra dita era desnecessária. Suas histórias eram
curtas, mas com muita profundidade e sentimento como numa epopeia.
Reinava a paz e a tranquilidade para todos os habitantes nas suas
histórias, mesmo faltando muitos personagens para as completar e ter
um verdadeiro final feliz. Os outros não o entendia, pois ele não
falava nenhuma palavra. Os monossílabos que saíam de sua boca
juntos as gotas de chuva que caiam nas telhas das casas pareciam o
encontro de várias notas musicais em plena orquestra sinfônica. Mas
não eram. Eu sei que não eram...”
“Um dia, não sei ao certo o
porque, o menino ganhou um presente de seus pais. Não por ser o seu
aniversário ou por ser Natal, somente ganhou um presente. Ao receber
o presente o menino, imparcialmente, abriu-o e descobriu o que lá
tinha. Era um livro, um grande livro de capa vermelha. Dom Quixote
de la Mancha de Miguel de Cervantes. Os olhos do menino do fosco ao
brilhante em poucos segundos mudava. Logo o menino começou a ler
aquele livro. Não que o menino soubesse ler, como muitos outros
meninos de sua idade. Mas ao passar de páginas, letras capitulares
douradas eram expostas junto com ilustrações belíssimas feitas a
mão. No livro aparecia um homem magricela que sobre o seu cavalo
seguia viagem pelo mundo a fora. E o menino pensou como engraçado
era andar sobre um cavalo de lugar para lugar. E ainda mais como
estranho era aquele mundo ao qual não chovia. Não chovia mesmo.
Chovia não no livro e sim...deixa para lá a história já está
quase no fim mesmo.”
“Um dia, como muita ousadia e
timidez, o menino levou o livro para os pais. Seu gesto não fora tão
bem entendido no começo pelos pais, mas compreenderam depois que era
para o livro ser lido. O pai começou a ler aquele livro... Como
difícil é falar sobre isto! Tem vezes que coisas na vida não
deveriam acontecer. O limiar entre o certo e o errado é pouco
visível e amadurecer de uma vez só é duro e perverso.
Continuando...O pai começou a ler aquele livro dia após dia. O
menino ouvia atenciosamente aquele livro dia após dia com olhos que
já não dizia mais nada. Quando o pai terminou aquele livro, numa
quinta-feira doze dias depois, o menino fechou os olhos de uma única
vez e emitiu um som quase mudo, mas que dava para ser entendido:
'Quando morre alguém que amamos...' O pai não teve reação na
hora. Creio que felicidade misturado com espanto pelo menino ter
falado. O menino saiu dali e foi direto para rua. Na rua não chovia
mais. Mas agora o menino entendia o sentido daquela chuva, pois
aquela chuva não era tão estranha para ele. Não mais. Na verdade,
aquela chuva até parecia um conforto para o menino. A chuva era doce
e limpa. Algo necessário para aquele momento.”
“Só naquele momento que o menino
soube o que era chuva... só naquele momento o menino deixou de ser
menino para se tornar homem... só naquele momento que aquele menino
ser transformou em mim. E aqui estou sobre o seu divã contanto sobre
mim mesmo e minha infância e como agora é difícil para eu lidar
com este mal-estar que é a sociedade. Eu sei o que o senhor vai
dizer...que eu preciso por para fora estes sentimentos...mas eu não
sei como...já não sei mais chorar.”
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