domingo, 22 de abril de 2012

O MENINO QUE NÃO SABIA CHORAR


POR:WALLACE
(em homenagem ao nosso amigo  Maike do Cafépsi)
 “Podemos dizer que todas as pessoas são tristes somente por sua frágil aparência? Que a infelicidade é o sentimento mais humano que podemos entender? Que todos sofrem de maneira igual ou que guardam este estado dentro de si por algum motivo? Eu posso responder um não para as três perguntas, pois eu conheci alguém que era diferente. Um menino, um menino especial.”

“Num lugar cinza de concreto e asfalto, onde a chuva constante era a única manifestação da natureza humana, vivia uma família de três integrantes: o pai, a mãe e o filho. Digo o pai, a mãe e o filho por não saber outros termos de uso, pois não sinto que era isto mesmo. Acho que nem laços consanguíneos possuíam. Mas para a memória da criança que ali vivia deixo a crença de família a ele, ao menos a crença.”

“Na casa desta família encontra-se o menino que citei antes. Ele era parecido com outros meninos de sua idade: baixo, franzino, meio encardido e com o nariz escorrendo. Nunca fui um bom detalhista com as outras pessoas. Nunca sentir a necessidade de olhar para os outros. Todos eram meio embaçados por causa da chuva. Sendo escritor de profissão isto era um problema. Mas penso que aquele menino era bem parecido comigo quando criança, por isso da descrição tão pessoal.”

“Mas voltando ao nosso menino que nem falar falava... Não falava porque falava. Ninguém sabia o porque disto, mas não era algo comum entre os meninos de sua idade. Em casa, o pai e a mãe falavam. Falavam num tom baixo quase mudo, mas falavam. O menino não. O menino só olhava como se o seu olhar já dissesse tudo. E dizia mesmo. Mas para entender este olhar necessitava de algo que os outros não tinham acesso. Não sei o que era, talvez um livro, sei lá. Mas aquele menino dizia tantas coisas com aqueles olhinhos remelentos. Os seus olhos eram duas questões buscando respostas. E bota respostas a fornecer aqueles olhinhos. Por que a calçada era tão pequena e a rua era tão grande se havia mais pessoas do que carros? Por se dizia as mesmas palavras quando se encontravam com pessoas diferentes? E por que raios chovia tanto naquele lugar? Perguntas e mais perguntas que eu não saberia responder agora.”

“O menino não era pobre, mas era privado de muitas coisas. Coisas que todos precisam ter naquela idade para quando se tornasse adulto conseguisse suportar bem a vida. Ele, um dia, andando pela rua achou uma bicicleta jogada atrás das latas de lixo. Sentiu algo por aquela bicicleta. Algo que nunca havia sentindo antes. Uma coisa que fazia a sua respiração diminuir e fazer doer a sua cabeça. Ele sentia pena da bicicleta. Pena por uma bicicleta? Sim ora essa. A bicicleta era muito diferente. Não possuía a corrente, o freio estava quebrado e o aro da roda da frente estava torto. Só que era uma bicicleta mesmo assim e o menino pegou-a para si. O menino arrastava aquela bicicleta pela rua todos os dias quando queria brincar. Todos olhavam aquele menino andando pela rua com uma bicicleta quebrada. O menino não se importava com isso. O que incomodava aquele menino era aquela chuva que caia constantemente deixando a bicicleta cada vez mais pesada. Se eu conhecesse aquele menino naquela época eu teria comprado uma bicicleta novinha para ele. Uma vermelha, com aro fino e com quatro machas. Que mesmo quando ele saísse na chuva a bicicleta estaria levezinha para andar. Bobagem minha, eu não faria isto. Eu somente olharia para aquele menino com o mesmo sentimento que tinha ele quando olhou para bicicleta pela primeira vez.”

“Outra coisa que o menino tinha, que para muitos era nada, mas para ele era tudo era uma coleção incompleta de soldadinhos verdes. E com estes soldadinhos o menino passava horas e horas somente fabulando histórias de tempos antigos onde a própria palavra dita era desnecessária. Suas histórias eram curtas, mas com muita profundidade e sentimento como numa epopeia. Reinava a paz e a tranquilidade para todos os habitantes nas suas histórias, mesmo faltando muitos personagens para as completar e ter um verdadeiro final feliz. Os outros não o entendia, pois ele não falava nenhuma palavra. Os monossílabos que saíam de sua boca juntos as gotas de chuva que caiam nas telhas das casas pareciam o encontro de várias notas musicais em plena orquestra sinfônica. Mas não eram. Eu sei que não eram...”

“Um dia, não sei ao certo o porque, o menino ganhou um presente de seus pais. Não por ser o seu aniversário ou por ser Natal, somente ganhou um presente. Ao receber o presente o menino, imparcialmente, abriu-o e descobriu o que lá tinha. Era um livro, um grande livro de capa vermelha. Dom Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes. Os olhos do menino do fosco ao brilhante em poucos segundos mudava. Logo o menino começou a ler aquele livro. Não que o menino soubesse ler, como muitos outros meninos de sua idade. Mas ao passar de páginas, letras capitulares douradas eram expostas junto com ilustrações belíssimas feitas a mão. No livro aparecia um homem magricela que sobre o seu cavalo seguia viagem pelo mundo a fora. E o menino pensou como engraçado era andar sobre um cavalo de lugar para lugar. E ainda mais como estranho era aquele mundo ao qual não chovia. Não chovia mesmo. Chovia não no livro e sim...deixa para lá a história já está quase no fim mesmo.”

“Um dia, como muita ousadia e timidez, o menino levou o livro para os pais. Seu gesto não fora tão bem entendido no começo pelos pais, mas compreenderam depois que era para o livro ser lido. O pai começou a ler aquele livro... Como difícil é falar sobre isto! Tem vezes que coisas na vida não deveriam acontecer. O limiar entre o certo e o errado é pouco visível e amadurecer de uma vez só é duro e perverso. Continuando...O pai começou a ler aquele livro dia após dia. O menino ouvia atenciosamente aquele livro dia após dia com olhos que já não dizia mais nada. Quando o pai terminou aquele livro, numa quinta-feira doze dias depois, o menino fechou os olhos de uma única vez e emitiu um som quase mudo, mas que dava para ser entendido: 'Quando morre alguém que amamos...' O pai não teve reação na hora. Creio que felicidade misturado com espanto pelo menino ter falado. O menino saiu dali e foi direto para rua. Na rua não chovia mais. Mas agora o menino entendia o sentido daquela chuva, pois aquela chuva não era tão estranha para ele. Não mais. Na verdade, aquela chuva até parecia um conforto para o menino. A chuva era doce e limpa. Algo necessário para aquele momento.”

“Só naquele momento que o menino soube o que era chuva... só naquele momento o menino deixou de ser menino para se tornar homem... só naquele momento que aquele menino ser transformou em mim. E aqui estou sobre o seu divã contanto sobre mim mesmo e minha infância e como agora é difícil para eu lidar com este mal-estar que é a sociedade. Eu sei o que o senhor vai dizer...que eu preciso por para fora estes sentimentos...mas eu não sei como...já não sei mais chorar.”


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